Acendem-se as luzes.
De novo, um novo dia. No palco, o mesmo planeta de sempre. A peça em cartaz também é a mesma: o baile de máscaras. Os actores... Trimmmmm! Já se esgotou o tempo, vamos começar.
Toca o despertador e o homem com máscara de empresário sai pela rua com os vidros do carro fechados. Seu sistema imunológico metaboliza títulos em ordem alfabética. A mão com máscara de coitada bate na janela, mas o chofer com máscara de fiel diz que hoje não. O sinal abre. Na esquina, o velho, com máscara de síndico conversa com a senhora com máscara de lamento. Ela recita seu texto chorosa e tranquilamente, enquanto o velho com máscara de sindico balança a cabeça sem talento algum.
Na farmácia, alguém com máscara de farmacêutico atende o rapaz com máscara de doente. O doente se irrita com o preço do calmante, atravessa a rua e vai comprar cigarros na padaria do senhor que não queria fazer o papel de padeiro.
Lá, muitos mascarados passam em rodízio; alguns por costume, outros por vício.
Na hora do almoço, entra em cena o rapaz com máscara de empregado. Seu papel é servir o pernil com máscara de saboroso ao homem casado com a mulher com máscara de indiferente. Seus filhos, adolescentes, usam máscaras de quem não tem máscara. As luzes vão caindo pela ribalta. Os mascarados disfarçam as curvas indesejáveis, retocam a idade com massa cosmética, e saem pelas sobras da noite, peregrinando de bar em bar- comprando gargalhadas com gotas de álcool. Crentes de que são autênticos, chegam ao clímax de quatro, inventando significados enciclopédicos para a palavra -AMOR-.
Depois engolem as páginas junto com comprimidos.
Do outro lado do balcão, alguém revela a verdade absoluta num longo arroto. De tão distorcido, soa natural. O som se propaga pelo instituto-de-beleza feito telefone-sem-fio, ampliando-se copo a copo.
Por fim, o mundo alcança o seu limite. Não há mais como suportar a pressão de viver pisando em ovos. O sol chega inevitavelmente. Os mascarados, então, voltam pelas ruas tentando arrancar o que já virou pele. Alguns desfalecem pelo caminho e resolvem dormir para sempre nas praças. Outros, persistentes, chegam até suas casas e, de pijamas, sonham como seria dormir nus...
" Uma coisa é mergulhar na humanidade lúcido de que a experiência humana está contida (dentro) de nós. Outra coisa é mergulhar na humanidade acreditando que nós estamos contidos dentro dela. Eis a diferença entre o louco e o sábio. O louco se afoga no mesmo baile de máscaras que o sábio flutua".
(Marcelo Ferrari)
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