sexta-feira, 16 de setembro de 2011

'Acendam-se as luzes!

De novo, um novo dia. No palco: o mesmo planeta de sempre. 

A peça em cartaz também é a mesma: o baile de máscaras.  

Os actores:  Toc Toccc. Esgotou-se o tempo. -já vai começar.

Toca o despertador e o homem com máscara de empresário sai pela rua com os vidros do carro fechados. Seu sistema imunológico metaboliza títulos em ordem alfabética.
 A mão com máscara de coitada bate na janela, mas o chouffer com máscara de fiel diz que hoje não. O sinal abre.

Na esquina, o velho, com máscara de síndico conversa com a senhora com máscara de lamento. Ela recita texto chorosa, enquanto o velho com máscara de sindico acena a cabeça sem talento algum.

Na farmácia, alguém com máscara de farmacêutico atende o rapaz com máscara de doente. O doente irrita-se com o preço do calmante, atravessa a rua e vai comprar cigarros na padaria do senhor que não queria fazer o papel de padeiro.
Lá, muitos mascarados passam em rodízio; alguns por costume, outros por vício.

Na hora do almoço, entra em cena o rapaz com máscara de empregado. Seu papel é servir o pernil com máscara de saboroso ao homem casado com a mulher com máscara de indiferente. Seus filhos, adolescentes, usam máscaras de quem não tem máscara. As luzes vão caindo pela ribalta.

Os mascarados disfarçam as curvas indesejáveis, retocam a idade com massa cosmética, e saem pelas sobras da noite, peregrinando de bar-em-bar comprando gargalhadas com gotas de álcool. Crentes de que são autênticos, chegam ao clímax de quatro, inventando significados enciclopédicos para a  palavra -AMOR-.
Depois engolem as páginas junto com comprimidos.

Do outro lado do balcão, alguém revela a verdade absoluta num longo arroto. De tão distorcido, soa natural. O som se propaga pelo instituto-de-beleza feito telefone-sem-fio, ampliando-se copo a copo.

Por fim, o mundo alcança o seu limite. Não há mais como suportar a pressão de viver pisando em ovos. O sol chega inevitavelmente. Os mascarados, então, voltam pelas ruas tentando arrancar o que já se transformou na própria pele. Alguns desfalecem pelo caminho e resolvem dormir para sempre nas praças. Outros, persistentes, chegam até suas casas e, de pijamas, sonham como seria dormir nus...

"  Uma coisa é mergulhar na humanidade lúcido de que a experiência humana está contida (dentro) de nós. Outra coisa é mergulhar na humanidade acreditando que nós estamos contidos dentro dela. Eis a diferença entre o louco e o sábio. O louco se afoga no mesmo baile de máscaras que o sábio flutua".

~Marcelo Ferrari

2 comentários:

Duarte disse...

Mas, se humanidade está toda ela contida dentro de nós, também estão o louco e o sábio que o julga.
Talvez seja essa a verdadeira sabedoria: percebermos que não existem sábios nem loucos, nem iluminados.
Quanto às máscaras, foram inventadas para esconder o facto insólito de que por trás não existem caras.
Talvez seja isso..
Dai o medo de sermos quem somos. É que enquanto não formos, podemos sempre pensar que podíamos, que existe alguém por trás de cada desejo, por trás de cada sonho.
As máscaras são a máquina que nos mantém vivos. Nós nada seríamos sem elas.
Ele É. É quem nós somos.

"Esse que crê que tem poder para matar
e o que pensa que também há-de morrer,
não entenderam nada, ambos, e só se enganam,
porque não há ninguém que mate ou que morra."

Maggie Gonçalves disse...

"O infinitamente grande está contido no infinitamente pequeno"

Estamos em sintonia:
parece que a verdadeira sabedoria está no todo. Sábios somos todos e iuminados também...

A consciência que tens acerca de ti-próprio é que faz a experiencia. Ela é que te dá a sabedoria, a liberdade.

Mas de que te que te servem as experiências, se não sabes quem és??
Estamos em altura de acordar e, deixar o Astro-rei brindar-nos.

As mascaras não servem para nada. Não necessito de nada para me manter viva. Muito menos de máscaras.

Caminho nua, o mais que consigo, e vou-me despindo passo-a-passo. incluindo de mim.
Mascara relaciona-se com mascara.
Amor(ser)relaciona-se com Amor(ser) ...
Chamo a isso integralidade.

a ti, Abraço-te com amor.