quarta-feira, 28 de março de 2012

' morte não mais será

Mais do que na opressão económico-financeira, mero sintoma, o grande mal-estar da civilização actual reside na Vida reprimida e sacrificada no trabalho e na funcionalização, nas mil actividades sem sentido a que somos obrigados e nos obrigamos para ganhar o sustento de uma existência tantas vezes medíocre e falhada, egoísta e inútil, sem golpe de asa libertador. E disso faz parte ainda este investimento de tempo nos espaços virtuais, onde todos imaginam comunicar, mas ninguém se conhece, escuta e toca, ninguém realmente comunga a sua presença sensível e consciente no mundo. Activistas e heróis do Facebook, dos blogs e da net, entusiastas das grandes causas no teclado, no nosso arremedo de partilha traímos a comunhão real, a vertigem de Eros nas entranhas e nos poros, o encontro directo de corpo, verbo e espírito. Quando regressaremos enfim ao Céu-Terra, quando cairemos no real, quando nos reencontraremos no fremente corpo do mundo, livres dos labirintos e exílios do intelecto? Ergamos os olhos do teclado e do ecrã para a maravilhosa dança dos rostos, dos corpos e do mundo, para este sol que se ergue ou declina, para o sensível espanto das coisas vivas. E a morte não mais será.
~Paulo Borges

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