a minha viagem em direcção a
uma vida simples tenho aprendido que a melhor forma de me sentir livre é
possuir o menos possível. Tal como uma caminhante de mochila às costas:
quanto menos peso, mais confortável se torna o caminho.
Da minha realidade material, tenho deixado partir muitas coisas. Sem
dificuldade. A cada posse que abdico sinto que me liberto de uma
corrente ligada a um estilo de vida de obrigações. Obrigações que apenas
me dão a capacidade de ter, de possuir tanta coisa que não me faz
verdadeiramente falta. E que me afasta de mim, da minha verdade.
Quando toca à minha liberdade emocional, o cenário torna-se mais
complicado. Preciso de muito tempo para perceber o que é que quero
transportar comigo, o que é que devo largar, como posso sentir-me leve. E
nem sempre sou bem sucedida. Desconfio não tanto por incapacidade mas
mais por falta de vontade. Ou por outras palavras: medo.
Mágoas, arrependimentos ou remorsos são objectos pesados. Trazem com
eles a estrutura mental do passado que me dá o conforto de poder
apontar-lhes o dedo quando alguma coisa corre mal. Ao trazê-los
teimosamente comigo posso sempre evocá-los quando me recuso a seguir
numa determinada direcção. Tal como as posses materiais, continuar a
transportá-los significa estar agrilhoada a uma corrente que me impede a
fluidez de movimentos. Me condiciona na escolha do caminho a seguir.
Largar estas mágoas, angústias ou arrependimentos significa perdoar. E o
perdão significa liberdade. Liberdade de escolher sem limitações. De
sentir a dor interna que provoca. Perceber que sou eu a sua origem e
poderei ser apenas eu a razão da sua extinção. Assumir inteira
responsabilidade pelo meu destino.
Mas estarei eu preparada
para aliviar tanto peso desta minha mochila? Leve, sem remorsos posso ir
onde quero, posso fazer o que me apetece. Posso escolher ir por trilhos
que outrora foram difíceis, que provavelmente hoje ainda são difíceis.
Largar a mágoa e percorrê-los sem hesitar as vezes que forem necessárias
até aliviar a dor que me provocam. Não por teimosia mas porque são
estes caminhos difíceis que me levam até à pessoa que eu ambiciono ser.
Não há corta-matos.
Então, talvez a questão não seja se serei eu capaz de perdoar mas sim: terei eu coragem de caminhar até não sentir dor?
~Sílvia Romão
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