sexta-feira, 2 de maio de 2014

'O sabor do Sexo

"Já só me resta outro cigarro para além deste. Vou ter de te contar isto depressa.
Deviam ser umas duas da manhã e Maria continuava a falar. Eram os copos que falavam por ela ou ela pelos copos. De qualquer maneira, não se calava.
Gosto que me fodam. Estamos a falar de sexo, ouviste? E no sexo, gosto que me fodam. Para o caso de não estares a perceber o que quero dizer, explico. Ser empurrada para a parede, uma parede qualquer, quero lá saber. Quando tenho a língua enfiada na boca dele e as mãos à procura de tudo, perco o norte ao chão e o sul ao tecto.
Gosto de ser bem fodida. Explico de novo porque pode parecer esquisito. Em primeiro lugar gosto de sexo e por isso e na sequência, uma boa foda é tudo e a única coisa que se pode exigir. Gosto que gemam comigo. De prazer que dou e espero de volta. Com força, com suor, línguas, mãos e dedos. Gosto que me atirem para cima da cama e me agarrem numa avidez de dias passados no mar, na guerra ou na prisão.
Vamos lá ver, gosto mas não é um gostar como quem gosta de laranjas a meio de uma tarde de calor. Nada disso. Não é um gostarzinho, ai que bem que me soube. É muito mais que isso. Gosto de ser bem fodida. Que fechem os olhos e o som saia pela boca sem querer. Que não se preocupem com o cabelo, o suor, a posição do corpo. Que me digam ordinarices sentidas e não só porque viram um filme. Se me querem foder, fodam bem. Digam que me querem a cona e façam o que dizem. Se não disserem nada, vou sentir tudo igual. Vou sentir as mãos que procuram, a língua que alivia e chupa, o corpo que me esmaga, contorce e aperto entre as coxas. Digam ou não, o que me rala é que me fodam bem. Que chafurdem comigo na humidade e fiquem a cheirá-la comigo.
Há um tempo atrás, tive um homem que fodia como comia: contido e a limpar a boca a seguir. No final, invariavelmente, levantava-se para a casa de banho, em passinhos de lã, com esperança de que eu e a minha indelicadeza não lhe perguntassem o que ia fazer. Lavava a cara e os dentes, às vezes punha um creme e voltava para a cama, cheiroso como uma manhã. Voltava para adormecer comigo e eu, estendida na cama, esborrachada em suor seco e empestada de cheiro de sexo. Cheguei a ter vergonha de estar assim. E não quero ter vergonha de gostar de sexo. Excita-me o final. Um pouco menos que o inicio mas igualmente uma excitação. Gosto de esperar e repetir de novo. As vezes que conseguirmos. Mas aquele homem, não gemia, não se descontrolava de um lugar onde sabia sempre onde tinha as mãos e os pés, o que dizia, o que fazia; balançava a cabeça para um lado e para o outro enquanto me fodia de costas. Não admirava as minhas nádegas nem a abertura que faziam, não parecia encantado com aquilo. Olhava como quem olha um quadro numa galeria: para um lado e para o outro. A certa altura, da repetição daquilo, tive de deixar de o olhar e procurar nele motivo para continuar excitada. Tive de recorrer, a certa altura, aquilo que me excitava com ele: gosto de sexo. Aquele homem, fodia como num filme pornográfico: repetia a mesma coisa de cada vez – "então?" - e sorria enquanto me masturbava. Enquanto eu me dividia em mil pedaços em orgasmos repetidos, descontrolada, eu olhava-me, impávido e sereno até eu acabar. Não me leves a mal que isso da repetição é muito bom, mas aquele homem, sem emoção aparente, parecia fazer aquilo como quem lê um livro engraçado ou come uma refeição agradável. Não me leves, de novo, a mal. Mas nunca lhe vi alteração na cara enquanto fodiamos mas acabava por ter também o seu orgasmo. Em cima de mim, dentro de mim ou na minha boca. De qualquer maneira, vinha-mo-nos os dois mas em tempos separados. Não me interpretes mal. Gostei muito dele. Era atencioso e, para além do sexo, gosto que me cuidem, que perguntem se estou bem e não apenas depois de me foderem. É bom, sabe bem. E tínhamos muito em comum, riamos das mesmas coisas numa cumplicidade de gente que se conhece para além da cama. Tínhamos isso tudo menos a intensidade da maneira de amar e deve ter sido isso o que o levou a dizer-me um dia que já não tinha por mim o mesmo sentimento do inicio. Disse-me isso com uma veemência um pouco maior do que qualquer outra vez em que me tenha fodido.
O corpo serve para exprimir o que se sente, quando as palavras não chegam. Por isso gosto de foder e ser fodida. Numa troca.
Se com isto achas que tive muitos homens, enganaste. A verdade é que não e não tenho vergonha de te dizer que se contam pelos dedos de uma mão. Continuas a não acreditar? Seja. Mas é a verdade. O que gosto no sexo é daquela mistura explosiva de instinto, ânsia de um caralho dentro de mim até ficar dormente, de pele, e de reconhecimento de alma. É por isso que tive tão poucos homens até hoje. Se sou capaz de foder no primeiro encontro? Sou, sem problema nenhum. Mas antes disso podes ter a certeza que já reconheci qualquer coisa que me leva a não questionar tudo o resto e a desligar o raciocínio que pensa no que não pode ser. Se não acho que isso pode ser mal entendido? Acho e deve ter sido. Sabes porquê? Porque, embora tenhamos gostado tanto, e um deles até se tenha vindo 3 vezes numa tarde como ele disse nunca lhe ter acontecido, embora procure essa mistura de animalidade com intimidade, o certo é que até agora, na doçura que tenho sido, procuram e ficam com outras. Outras que tenham dores de cabeça, que não fodam enquanto menstruam, que estejam muito cansadas ou ocupadas com outras preocupações e prefiram esperar fins de semana ou as férias. Se calhar é este meu gosto pelo sexo que assusta. E me deixe sozinha mesmo depois de ser boa na cama e um doce o resto do tempo. É por isso que não gosto que me beijem na testa. Para além disso, não sou de empatar e não gosto que me empatem. Mas deve ser por isso que não tenho valido a pena. São os copos dizes tu? É capaz. Por falar nisso, pede mais um que tenho sede."

~ Evangeline S. Lewis

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