"Já só me resta outro cigarro para além deste. Vou ter de te contar isto depressa.
Deviam ser umas duas da manhã e Maria continuava a falar. Eram os copos
que falavam por ela ou ela pelos copos. De qualquer maneira, não se
calava.
Gosto que me fodam. Estamos a falar de sexo, ouviste? E no
sexo, gosto que me fodam. Para o caso de não estares a perceber o que
quero dizer, explico. Ser empurrada para a parede, uma parede qualquer,
quero lá saber. Quando tenho a língua enfiada na boca dele e as mãos à
procura de tudo, perco o norte ao chão e o sul ao tecto.
Gosto de
ser bem fodida. Explico de novo porque pode parecer esquisito. Em
primeiro lugar gosto de sexo e por isso e na sequência, uma boa foda é
tudo e a única coisa que se pode exigir. Gosto que gemam comigo. De
prazer que dou e espero de volta. Com força, com suor, línguas, mãos e
dedos. Gosto que me atirem para cima da cama e me agarrem numa avidez de
dias passados no mar, na guerra ou na prisão.
Vamos lá ver, gosto
mas não é um gostar como quem gosta de laranjas a meio de uma tarde de
calor. Nada disso. Não é um gostarzinho, ai que bem que me soube. É
muito mais que isso. Gosto de ser bem fodida. Que fechem os olhos e o
som saia pela boca sem querer. Que não se preocupem com o cabelo, o
suor, a posição do corpo. Que me digam ordinarices sentidas e não só
porque viram um filme. Se me querem foder, fodam bem. Digam que me
querem a cona e façam o que dizem. Se não disserem nada, vou sentir tudo
igual. Vou sentir as mãos que procuram, a língua que alivia e chupa, o
corpo que me esmaga, contorce e aperto entre as coxas. Digam ou não, o
que me rala é que me fodam bem. Que chafurdem comigo na humidade e
fiquem a cheirá-la comigo.
Há um tempo atrás, tive um homem que
fodia como comia: contido e a limpar a boca a seguir. No final,
invariavelmente, levantava-se para a casa de banho, em passinhos de lã,
com esperança de que eu e a minha indelicadeza não lhe perguntassem o
que ia fazer. Lavava a cara e os dentes, às vezes punha um creme e
voltava para a cama, cheiroso como uma manhã. Voltava para adormecer
comigo e eu, estendida na cama, esborrachada em suor seco e empestada de
cheiro de sexo. Cheguei a ter vergonha de estar assim. E não quero ter
vergonha de gostar de sexo. Excita-me o final. Um pouco menos que o
inicio mas igualmente uma excitação. Gosto de esperar e repetir de novo.
As vezes que conseguirmos. Mas aquele homem, não gemia, não se
descontrolava de um lugar onde sabia sempre onde tinha as mãos e os pés,
o que dizia, o que fazia; balançava a cabeça para um lado e para o
outro enquanto me fodia de costas. Não admirava as minhas nádegas nem a
abertura que faziam, não parecia encantado com aquilo. Olhava como quem
olha um quadro numa galeria: para um lado e para o outro. A certa
altura, da repetição daquilo, tive de deixar de o olhar e procurar nele
motivo para continuar excitada. Tive de recorrer, a certa altura, aquilo
que me excitava com ele: gosto de sexo. Aquele homem, fodia como num
filme pornográfico: repetia a mesma coisa de cada vez – "então?" - e
sorria enquanto me masturbava. Enquanto eu me dividia em mil pedaços em
orgasmos repetidos, descontrolada, eu olhava-me, impávido e sereno até
eu acabar. Não me leves a mal que isso da repetição é muito bom, mas
aquele homem, sem emoção aparente, parecia fazer aquilo como quem lê um
livro engraçado ou come uma refeição agradável. Não me leves, de novo, a
mal. Mas nunca lhe vi alteração na cara enquanto fodiamos mas acabava
por ter também o seu orgasmo. Em cima de mim, dentro de mim ou na minha
boca. De qualquer maneira, vinha-mo-nos os dois mas em tempos separados.
Não me interpretes mal. Gostei muito dele. Era atencioso e, para além
do sexo, gosto que me cuidem, que perguntem se estou bem e não apenas
depois de me foderem. É bom, sabe bem. E tínhamos muito em comum, riamos
das mesmas coisas numa cumplicidade de gente que se conhece para além
da cama. Tínhamos isso tudo menos a intensidade da maneira de amar e
deve ter sido isso o que o levou a dizer-me um dia que já não tinha por
mim o mesmo sentimento do inicio. Disse-me isso com uma veemência um
pouco maior do que qualquer outra vez em que me tenha fodido.
O corpo serve para exprimir o que se sente, quando as palavras não chegam. Por isso gosto de foder e ser fodida. Numa troca.
Se com isto achas que tive muitos homens, enganaste. A verdade é que
não e não tenho vergonha de te dizer que se contam pelos dedos de uma
mão. Continuas a não acreditar? Seja. Mas é a verdade. O que gosto no
sexo é daquela mistura explosiva de instinto, ânsia de um caralho dentro
de mim até ficar dormente, de pele, e de reconhecimento de alma. É por
isso que tive tão poucos homens até hoje. Se sou capaz de foder no
primeiro encontro? Sou, sem problema nenhum. Mas antes disso podes ter a
certeza que já reconheci qualquer coisa que me leva a não questionar
tudo o resto e a desligar o raciocínio que pensa no que não pode ser. Se
não acho que isso pode ser mal entendido? Acho e deve ter sido. Sabes
porquê? Porque, embora tenhamos gostado tanto, e um deles até se tenha
vindo 3 vezes numa tarde como ele disse nunca lhe ter acontecido, embora
procure essa mistura de animalidade com intimidade, o certo é que até
agora, na doçura que tenho sido, procuram e ficam com outras. Outras que
tenham dores de cabeça, que não fodam enquanto menstruam, que estejam
muito cansadas ou ocupadas com outras preocupações e prefiram esperar
fins de semana ou as férias. Se calhar é este meu gosto pelo sexo que
assusta. E me deixe sozinha mesmo depois de ser boa na cama e um doce o
resto do tempo. É por isso que não gosto que me beijem na testa. Para
além disso, não sou de empatar e não gosto que me empatem. Mas deve ser
por isso que não tenho valido a pena. São os copos dizes tu? É capaz.
Por falar nisso, pede mais um que tenho sede."
~ Evangeline S. Lewis

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